Mato Grosso procura novas portas para a carne: Peru ganha espaço e Pacífico entra no radar
Carne bovina amplia presença no mercado peruano enquanto Chancay abre uma nova possibilidade logística para aproximar o Centro-Oeste dos mercados asiáticos

Foto/Divulgação | meramente ilustrativa: Enquanto a carne bovina produzida no Estado amplia sua presença no Peru, a transformação logística provocada pelo Porto de Chancay coloca o Pacífico no radar da cadeia pecuária como uma possibilidade adicional de conexão com a Ásia.
📌 Resumo Executivo
- Ação de Mercado: Imac apresentou cortes nobres na Expoalimentaria (Lima), focando em nichos de maior valor para médios e pequenos frigoríficos.
- Liderança Nacional: Mato Grosso responde por 25,6% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil (564,1 mil toneladas até agosto de 2026).
- Rota do Pacífico: O Porto de Chancay (Peru) surge como alternativa estratégica ao Atlântico, podendo reduzir custos de frete para a Ásia em cerca de 20%.
- Integração Regional: Projetos da FICO e corredores bioceânicos inserem o Centro-Oeste nas discussões oficiais de infraestrutura sul-americana.
A pecuária de Mato Grosso está olhando para duas fronteiras ao mesmo tempo: novos consumidores e novas rotas.
Enquanto a carne bovina produzida no Estado amplia sua presença no Peru, a transformação logística provocada pelo Porto de Chancay coloca o Pacífico no radar da cadeia pecuária como uma possibilidade adicional de conexão com a Ásia.
Os dois movimentos estiveram presentes na participação mato-grossense na Expoalimentaria, realizada entre 23 e 25 de setembro, em Lima. O Instituto Mato-grossense da Carne (Imac) apresentou a proteína produzida no Estado a compradores durante a feira, utilizando cortes como ancho, fraldinha, maminha e contrafilé em degustações conduzidas pelo chef Carlos Miranda.
A estratégia tem uma lógica que vai além da abertura de mais um mercado: Mato Grosso está tentando vender para mais lugares enquanto acompanha a construção de caminhos diferentes para chegar até eles.
Peru: mercado complementar, não substituto
O Peru tem uma população de aproximadamente 34,1 milhões de habitantes e, segundo estudos citados pelo Imac, apresenta consumo médio de carne bovina próximo de 6 quilos por habitante ao ano. Em Lima, esse consumo chega a 8,31 quilos.
Para a indústria mato-grossense, especialmente frigoríficos de pequeno e médio porte, o mercado pode oferecer espaço em segmentos como restaurantes, hotéis e consumidores de maior renda. A lógica, portanto, não é competir necessariamente por grandes volumes, mas sim encontrar nichos capazes de remunerar qualidade, cortes diferenciados e regularidade de fornecimento.
Essa característica é importante porque a pecuária de Mato Grosso já possui escala suficiente para disputar os grandes mercados internacionais. O desafio seguinte é ampliar a capacidade de capturar valor em diferentes destinos.
Destaque Sanitário Regional Mato Grosso completa 30 anos sem aftosa: como o Estado transformou sanidade animal em patrimônio econômicoA pecuária de MT já está mais diversificada
O movimento peruano ocorre em uma cadeia que já vem ampliando sua presença internacional. No primeiro semestre de 2026, a carne bovina de Mato Grosso chegou a 88 países, gerando receita de aproximadamente US$ 2,4 bilhões, com preço médio de US$ 6,1 mil por tonelada.
No período, a China permaneceu como principal destino, com 282,4 mil toneladas. Estados Unidos e Chile apareceram na sequência, com 41 mil e 31 mil toneladas, respectivamente. Em janeiro de 2026, a proteína mato-grossense já havia iniciado o ano com embarques para mais de 80 países e a China concentrava 57,5% das exportações daquele mês.
Os números mostram uma característica importante: a China continua sendo indispensável, mas deixou de ser a única história da carne de Mato Grosso.
Essa diversificação ganhou ainda mais peso ao longo do ano. Entre janeiro e agosto, Mato Grosso exportou 564,1 mil toneladas de carne bovina, equivalentes a 25,6% de toda a carne bovina brasileira exportada no período. A receita chegou a aproximadamente US$ 3,2 bilhões. Uma em cada quatro toneladas de carne bovina exportadas pelo Brasil nesse período saiu de Mato Grosso. É muita escala. E escala cria uma segunda necessidade: mais destinos e mais alternativas logísticas.
É aí que Chancay entra na história
O Porto de Chancay, no litoral peruano, muda a discussão porque não representa simplesmente mais um porto. Ele foi concebido como uma ligação direta entre a costa do Pacífico sul-americano e os mercados asiáticos.
O complexo iniciou operações em novembro de 2024 e foi estruturado pela Cosco Shipping como um grande terminal de águas profundas. Desde então, novas conexões marítimas com a Ásia vêm sendo estabelecidas. Uma rota direta entre Guangzhou e Chancay, por exemplo, passou a operar em 2025, com expectativa de reduzir em cerca de 20% o custo logístico daquela ligação.
A consequência estratégica é maior do que o porto em si. Chancay passa a funcionar como uma peça de uma nova arquitetura de comércio entre América do Sul e Ásia pelo Pacífico. E isso interessa ao Centro-Oeste.
💡 Análise TransMeridional: O Impacto para o Eixo Logístico
Para o produtor e a indústria do Eixo BR-163 e do Nortão de Mato Grosso, rota é preço. A carne precisa sair da fazenda, chegar ao frigorífico, ser processada, seguir até um terminal e alcançar o comprador. Quando surge uma alternativa pelo Pacífico viável, cria-se competição entre corredores. Chancay não precisa substituir Santos ou Paranaguá; basta ser uma opção real para dar poder de negociação e reduzir a dependência de rotas únicas.
A carne é uma das cargas que podem se encaixar nesse corredor
Um estudo publicado pelo Ipea sobre Chancay e a integração da infraestrutura sul-americana aponta que mercadorias de maior valor por tonelada e com possibilidade de transporte em contêineres apresentam melhor adaptação às características do corredor. Entre os produtos citados estão justamente proteínas animais, miudezas e produtos da agroindústria.
Isso não significa que a carne bovina de Mato Grosso já esteja sendo embarcada regularmente por Chancay rumo à Ásia; essa conclusão seria prematura. O que o estudo mostra é que a natureza da carga frigorificada se encaixa em uma das oportunidades logísticas que o novo corredor pode oferecer. É uma diferença importante. O potencial existe; a rota comercial ainda precisa ser construída.
E Mato Grosso aparece no desenho da integração
O interesse ganha outra dimensão quando se observa o projeto de integração ferroviária Brasil–Peru. O governo brasileiro vem estudando uma conexão que poderia ligar a infraestrutura ferroviária do Centro-Oeste ao Porto de Chancay.
Em uma proposta divulgada pelo Ministério do Planejamento, a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), que avançará até Lucas do Rio Verde, aparece como um dos elementos de uma futura conexão bioceânica com o Peru. Em outra frente, o governo federal e autoridades da Bahia apresentaram o conceito de um corredor ferroviário estruturante atravessando Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre até o Peru.
O projeto ainda depende de estudos, investimentos e execução de trechos que não estão prontos. Mas existe algo importante acontecendo: o Pacífico deixou de ser apenas uma ideia geográfica e passou a fazer parte da discussão oficial sobre infraestrutura de integração do Brasil.
BOX | DUAS FRENTES PARA A CARNE DE MATO GROSSO
🇵🇪 Mercado Peru
- • 34,1 milhões de habitantes
- • Consumo de carne bovina relativamente baixo
- • Lima: cerca de 8,31 kg/habitante/ano
- • Potencial para restaurantes, hotéis e alta renda
- • Mercado complementar para frigoríficos médios
🌊 Logística Chancay
- • Novo grande porto peruano no Pacífico
- • Conexões diretas com a Ásia
- • Potencial para cargas de alto valor agregado
- • Proteínas animais adequadas ao corredor
- • Integração com BR depende de novas obras
A nova geografia da carne
A pecuária de Mato Grosso está, portanto, entrando em uma etapa diferente. Durante muito tempo, a questão principal era quanto o Estado consegue produzir. Depois veio outra: quantos países conseguem comprar essa produção? Agora aparece uma terceira: por quantas rotas essa produção pode chegar aos mercados?
Essa mudança parece logística, mas é essencialmente econômica. Uma nova rota pode alterar custo de transporte, tempo de trânsito, competitividade entre portos, formação de preços, capacidade de atender determinados mercados, possibilidade de trabalhar com cargas de maior valor e o poder de negociação da indústria.
É por isso que Chancay interessa à pecuária mesmo antes de se transformar em uma rota consolidada para a carne mato-grossense.
O Peru pode ser comprador e corredor
Essa talvez seja a característica mais interessante dessa nova frente. O Peru não precisa ser apenas o destino final da carne; pode ser também parte da infraestrutura necessária para alcançar mercados mais distantes. É uma diferença estratégica. Mercado consumidor e corredor logístico passam a se encontrar no mesmo país.
A Expoalimentaria colocou compradores peruanos diante da carne de Mato Grosso. Chancay coloca o Pacífico diante da infraestrutura logística da América do Sul. E a conexão entre os dois movimentos é justamente o que merece atenção.
Da porteira ao Pacífico
Para a pecuária mato-grossense, o movimento peruano ainda é inicial. O mercado precisa ser desenvolvido, os compradores precisam ser conquistados e os fluxos comerciais precisam ganhar escala. Da mesma forma, Chancay não deve ser tratado como uma solução pronta para o escoamento da produção do Estado. A conexão física entre Mato Grosso e o Pacífico ainda depende de projetos de infraestrutura, investimentos e viabilidade econômica.
Mas o movimento já revela uma mudança de mentalidade. Mato Grosso não está apenas procurando novos compradores para sua carne; está começando a pensar em novas geografias de mercado e novas geografias logísticas.
Para uma pecuária que já exporta mais de meio milhão de toneladas em apenas oito meses e responde por 25,6% da carne bovina brasileira vendida ao exterior, crescer daqui para frente significa aumentar o número de portas de saída, encontrar mercados que paguem pelo valor do produto e construir caminhos competitivos até eles. O próximo mapa da pecuária mato-grossense pode ser desenhado não apenas pelos mercados que compram sua carne, mas pelas rotas que permitem que ela chegue até eles.
❓ Perguntas Frequentes sobre a Rota Comercial MT-Peru
Como a abertura do mercado peruano impacta a pecuária de Mato Grosso?
O Peru funciona como um mercado complementar focado em nichos de maior valor agregado (restaurantes, hotéis e consumo de maior renda em Lima), beneficiando principalmente frigoríficos de pequeno e médio porte em MT.
Qual a importância do Porto de Chancay para os produtores do Centro-Oeste?
O Porto de Chancay, no Peru, estabelece um corredor de saída direto pelo Oceano Pacífico rumo à Ásia, com potencial de reduzir custos operacionais e tempo de trânsito em até 20% para cargas frigorificadas.
Quanto Mato Grosso representa nas exportações brasileiras de carne bovina?
Entre janeiro e agosto de 2026, Mato Grosso exportou 564,1 mil toneladas de carne bovina, o que equivale a 25,6% (uma em cada quatro toneladas) de toda a proteína bovina exportada pelo Brasil.
Quais são as principais rotas de escoamento da carne bovina de MT atualmente?
Atualmente, a maior parte do volume de carne bovina exportada por Mato Grosso é escoada pelos portos do Atlântico, predominantemente Santos (SP) e Paranaguá (PR).
