
Foto: Divulgação / Mesmo com safra recorde de 346,1 mi de toneladas, alta dos custos e juros elevam pedidos de recuperação judicial no agronegócio em Mato Grosso e no Brasil.
Safra recorde, caixa apertado: o agro brasileiro produz mais, mas enfrenta uma crise de liquidez
Resumo Executivo
- Produção recorde em 2025 (346,1 mi t) não evitou gargalo financeiro e estresse de caixa.
- Pedidos de recuperação judicial no agro subiram 56,4% em 2025, atingindo 1.990 registros.
- Mato Grosso lidera o ranking nacional com 332 pedidos de RJs no agronegócio.
- Inadimplência da população rural subiu para 8,2% no fim de 2025 com crédito mais restrito.
O agronegócio brasileiro vive uma contradição que começa a ficar difícil de ignorar: o país nunca produziu tantos grãos, mas uma parcela crescente dos produtores enfrenta dificuldades para fechar as contas.
A safra de 2025 alcançou 346,1 milhões de toneladas, recorde da série histórica do IBGE e crescimento de 18,2% sobre o resultado de 2024. Soja e milho também atingiram marcas históricas, com 166,1 milhões e 141,7 milhões de toneladas, respectivamente.
A produção, portanto, não é o problema. O problema está na distância entre produzir, faturar e gerar caixa suficiente para pagar as contas. E essa diferença ajuda a explicar por que o campo atravessa um período de forte pressão financeira mesmo depois de uma das maiores safras da história.
O paradoxo da maior safra
O Brasil aumentou sua produção de grãos em mais de 53 milhões de toneladas entre 2024 e 2025. A área colhida, porém, cresceu 3,2%, passando para 81,6 milhões de hectares. Isso significa que boa parte do avanço veio de produtividade, tecnologia e condições climáticas mais favoráveis.
É uma demonstração da eficiência alcançada pelo agronegócio brasileiro. Mas produtividade recorde não garante margem recorde.
O produtor vende sua produção em mercados sujeitos a preços internacionais, câmbio, custos de fertilizantes, fretes, juros e condições de crédito. Quando vários desses componentes se movimentam na direção errada ao mesmo tempo, uma safra volumosa pode simplesmente não produzir o caixa esperado. É aí que aparece o problema financeiro.
Recuperação judicial deixa de ser exceção
Os números da Serasa Experian mostram a dimensão dessa pressão. Em 2025, o agronegócio brasileiro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, considerando produtores rurais pessoas físicas, pessoas jurídicas e empresas relacionadas à cadeia.
Foi o maior número desde o início da série histórica, em 2021, e representou crescimento de 56,4% sobre 2024, quando foram registrados 1.272 pedidos. Em 2023, eram 534.
A trajetória é reveladora. Em apenas dois anos, o número de pedidos praticamente quadruplicou. Isso não significa que todo o setor esteja insolvente. Significa que uma parcela cada vez maior das empresas e propriedades rurais está recorrendo a mecanismos de reorganização das dívidas para tentar preservar a atividade. A própria Serasa aponta como fatores de pressão o crédito mais restritivo, os custos elevados de produção e o nível de alavancagem das operações.
Mato Grosso está no centro desse movimento
Para Mato Grosso, o dado merece atenção especial. O Estado registrou 332 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, liderando o ranking nacional. Goiás apareceu em seguida, com 296, e o Paraná teve 248.
O número é significativo porque Mato Grosso também é o maior produtor de grãos do país. Isso ajuda a desmontar uma interpretação simplista segundo a qual recuperação judicial seria consequência de falta de produção.
No caso mato-grossense, ocorre justamente o contrário: o Estado está no coração da expansão agrícola brasileira e, ao mesmo tempo, concentra uma parcela importante dos casos de estresse financeiro do setor. Essa combinação revela que escala de produção e saúde financeira são coisas diferentes. Uma operação agrícola pode produzir milhões de reais em receita e ainda assim enfrentar problemas graves de fluxo de caixa.
O crédito virou parte do problema
A agricultura brasileira possui uma característica estrutural: grande parte da produção depende de capital antecipado. Antes de colher, o produtor precisa financiar sementes, fertilizantes, defensivos, diesel, máquinas, mão de obra, manutenção, arrendamento e logística. O dinheiro sai meses antes de a receita entrar.
Quando o custo do dinheiro sobe ou o crédito fica mais seletivo, o impacto aparece diretamente no ciclo produtivo. E o problema não termina quando a colheita chega. Se a receita obtida com a venda da produção não for suficiente para cobrir o custeio, as dívidas anteriores continuam pressionando o caixa da propriedade. O produtor pode ter uma safra excelente em toneladas e, ainda assim, terminar o ciclo com uma estrutura financeira mais frágil.
Inadimplência mostra que o problema chegou ao campo
Os dados da Serasa Experian ajudam a completar esse quadro. A inadimplência da população rural chegou a 8,2% no último trimestre de 2025, alta de um ponto percentual em relação ao mesmo período de 2024. O indicador considera pessoas físicas da população rural com dívidas vencidas há mais de 180 dias junto a empresas relacionadas ao agronegócio.
É importante fazer uma distinção. Esse índice não representa a inadimplência de todas as empresas rurais nem pode ser interpretado como percentual de produtores insolventes. Mas ele mostra que a deterioração financeira já ultrapassou o nível das grandes operações empresariais e alcança também a população rural. Ou seja: o problema do caixa não está restrito aos balanços das grandes empresas do agro.
O produtor está sendo espremido entre custo e preço
A equação financeira do campo ficou mais difícil. De um lado, há custos de produção elevados e despesas financeiras que precisam ser pagas independentemente do preço futuro da commodity.
Do outro, soja, milho e outros produtos são vendidos em mercados nos quais o produtor brasileiro tem pouca capacidade individual de determinar preços. Quando o preço da commodity cai, o custo não necessariamente acompanha.
O fertilizante comprado antes da safra continua sendo pago pelo preço contratado. A parcela do financiamento vence. O arrendamento vence. O diesel precisa ser comprado. A máquina precisa continuar funcionando. É por isso que preço da commodity e rentabilidade agrícola não são a mesma coisa. O produtor pode vender mais toneladas e, mesmo assim, aumentar pouco — ou até reduzir — o resultado líquido.
A safra recorde também aumenta a necessidade de capital
Existe ainda uma ironia nesse processo. Quanto maior a produção, maior pode ser a necessidade de capital de giro. Mais hectares significam mais sementes. Mais produtividade exige tecnologia. Mais produção exige transporte, armazenagem e comercialização.
Em uma propriedade altamente alavancada, crescer pode significar aumentar simultaneamente a receita e a dívida. O problema aparece quando a expansão foi financiada com uma expectativa de preço que não se confirma. Nesse cenário, uma nova safra não necessariamente resolve a anterior. Ela pode simplesmente carregar para frente as obrigações que ficaram para trás.
O risco agora é chegar ao plantio com o caixa comprometido
Esse ponto merece atenção especial em agosto. O produtor brasileiro está entrando na fase decisiva para o planejamento da próxima safra de soja. Crédito para aquisição de insumos, definição de área, compra antecipada e contratação de serviços precisam ser resolvidos antes de a máquina entrar no campo.
Uma análise divulgada nesta semana pela Folha mostra que uma gestora de crédito estruturado avalia a reestruturação de R$ 1,5 bilhão em dívidas de produtores de soja, especialmente no Matopiba. Segundo a reportagem, produtores com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 200 milhões enfrentam problemas de liquidez para despesas correntes e precisam garantir crédito antes do plantio.
Isso mostra que o problema financeiro não ficou restrito ao balanço de 2025. Ele está interferindo na preparação da próxima safra.
Produzir mais não basta
A grande lição dos números talvez seja justamente esta: o desafio do agronegócio brasileiro mudou. Durante décadas, a principal preocupação foi aumentar a produção.
O país precisava conquistar produtividade, abrir novas áreas, melhorar genética, mecanizar, corrigir solos, construir armazenagem e ampliar exportações. Esse processo funcionou. A produção de grãos mais que dobrou em 13 anos: saiu de 162 milhões de toneladas em 2012 para 346,1 milhões em 2025, enquanto a área colhida cresceu 66,8%.
Agora, entretanto, a questão é diferente. Não basta saber quanto o produtor consegue produzir. É preciso saber quanto sobra depois de pagar o custo financeiro, os insumos, a logística, os impostos, o arrendamento, as máquinas e as demais despesas da operação.
A próxima fronteira do agronegócio brasileiro pode ser menos física e mais financeira: produzir com margem, administrar risco e preservar liquidez.
Análise Estratégica: Escala vs. Saúde Financeira
O cenário mato-grossense prova que liderar a produção de grãos não blinda a cadeia contra o arrocho de liquidez. A prioridade dos próximos ciclos se desloca do aumento da área plantada para a gestão rigorosa de custos, controle da alavancagem bancária e proteção do fluxo de caixa.
O campo entra em uma fase de seleção
A tendência não significa que o agronegócio brasileiro esteja quebrado. Muito pelo contrário. O setor continua sendo uma das maiores forças produtivas e exportadoras do país.
Mas os números mostram que o crescimento da produção não protege automaticamente todas as propriedades contra o endividamento. A diferença tende a aparecer cada vez mais na gestão. Produtores com estrutura financeira equilibrada, custos controlados, boa comercialização e menor exposição a dívidas de curto prazo terão mais capacidade de atravessar períodos de preços ruins.
Operações excessivamente alavancadas, por outro lado, ficam mais vulneráveis a qualquer combinação de clima adverso, queda de preços ou restrição de crédito.
A safra recorde de 2025 deixou uma mensagem que pode ser mais importante do que o próprio recorde: o Brasil já aprendeu a produzir muito. Agora precisa aprender a transformar produção em caixa, margem e segurança financeira.
E, para Mato Grosso, onde produção e escala atingiram níveis extraordinários, essa talvez seja uma das principais discussões econômicas dos próximos ciclos.
Pilares de Sobrevivência e Gestão no Campo
- Controle de Alavancagem: Redução da dependência de capital de giro de alto custo de curto prazo.
- Planejamento de Insumos: Compra estratégica alinhada com travas de preço de venda (Barter/Hedge).
- Foco em Margem Líquida: Priorização da rentabilidade por hectare em vez da simples expansão de área.
