Campo de cultivo desolado com degradê vermelho escuro e bandeira Argentina rasgada  style=

Foto: Divulgação / Estudo do BID mostra desaceleração na produtividade da Argentina. Entenda os impactos e o desafio de Mato Grosso para agregar valor ao agro em 2026.

Argentina acende alerta para o agro brasileiro: crescer usando mais insumos não basta
Economia & Agronegócio

Argentina acende alerta para o agro brasileiro: crescer usando mais insumos não basta

Estudo do BID mostra perda de força da produtividade agrícola argentina a partir de 2003. Brasil segue em trajetória diferente, mas o desafio agora é transformar sua vantagem tecnológica em um novo salto de eficiência — especialmente em Mato Grosso.

Autor: Diretoria de Conteúdo (Inteligência Regional) Data: 14 de Agosto de 2026 Leitura: 6 min

Resumo Executivo

  • Alerta do BID: A partir de 2003, a agricultura argentina passou a depender mais de insumos do que de ganhos reais de produtividade.
  • Trajetória Brasileira: O Brasil cresceu no ritmo de 3,2% ao ano na PTF (2000-2019), quase o dobro da média global.
  • Destaque de Mato Grosso: A tecnologia respondeu por 67% do crescimento agropecuário no estado, com alta anual de 5,81% na PTF entre 2006 e 2017.
  • Próximo Salto: O desafio regional migra de produzir mais toneladas para agregar mais valor por hectare com eficiência de capital.
📉 PTF Argentina (03-15) 1,60% /ano
🚀 PTF Mato Grosso 5,81% /ano
🔬 Impacto Tecnologia MT 67% do Produto
🌐 PTF Brasil vs. Mundo 3,2% vs 1,7%

A agricultura argentina oferece ao Brasil um alerta que vai muito além das fronteiras do país vizinho. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que a Argentina passou, a partir de 2003, por uma mudança importante na fonte de crescimento do seu agronegócio: a produção continuou avançando, mas passou a depender proporcionalmente mais da utilização de insumos, enquanto o crescimento da produtividade total dos fatores perdeu velocidade.

O fenômeno merece atenção porque existe uma diferença fundamental entre produzir mais porque se ficou mais eficiente e produzir mais porque se colocou mais recursos dentro do sistema produtivo. No primeiro caso, a agricultura ganha produtividade. No segundo, a produção pode crescer enquanto a conta para produzir também aumenta. E essa é uma distinção estratégica para o Brasil.

A Argentina produziu mais, mas começou a depender mais dos insumos

Os números do estudo do BID são bastante claros. Entre 1990 e 2002, a produtividade total dos fatores (PTF) da agricultura argentina cresceu 3,29% ao ano, enquanto a produção avançou 3,99% e o uso de insumos, apenas 0,68% ao ano. Foi um período marcado por forte adoção tecnológica, avanço da biotecnologia, plantio direto e utilização de fertilizantes.

A partir de 2003, porém, o equilíbrio mudou. Entre 2003 e 2015, a produção agrícola argentina cresceu 3,15% ao ano, mas a PTF desacelerou para 1,6%, enquanto o crescimento dos insumos chegou a 1,55% ao ano.

Na prática, a distância entre produção e produtividade diminuiu. A agricultura continuava crescendo, mas uma parcela maior desse crescimento dependia da intensificação dos fatores utilizados na produção. No período seguinte, entre 2016 e 2022, o quadro ficou ainda mais fraco: a produção cresceu apenas 0,99% ao ano e a PTF, 1%. O uso de insumos praticamente não avançou. O resultado foi uma agricultura que deixou de apresentar o mesmo dinamismo observado nas décadas anteriores.

O problema não é usar mais insumos

É importante não interpretar o estudo de maneira equivocada. Uma agricultura moderna precisa de fertilizantes, defensivos, máquinas, sementes melhoradas, energia, irrigação, tecnologia e capital. O problema não é aumentar o uso de insumos. O problema aparece quando o crescimento da produção passa a depender cada vez mais deles porque a eficiência do sistema deixa de avançar na mesma velocidade.

Imagine uma propriedade que produzia 100 unidades utilizando 100 unidades de recursos. Se passa a produzir 130 utilizando praticamente os mesmos recursos, houve um ganho expressivo de eficiência. Mas, se precisa elevar os recursos utilizados para 125 ou 130 para chegar às mesmas 130 unidades de produção, a situação é diferente. A produção aumentou. A produtividade, nem tanto. E essa diferença aparece diretamente na margem.

O Brasil construiu uma trajetória diferente

É justamente aqui que o caso argentino deixa de ser uma previsão para o Brasil e passa a ser um alerta. O agro brasileiro tem uma história recente de crescimento fortemente associado à produtividade.

Segundo o Ipea, a produtividade total dos fatores da agricultura brasileira cresceu aproximadamente 3,2% ao ano entre 2000 e 2019, quase o dobro da média mundial, de cerca de 1,7% no mesmo período. Em uma análise histórica mais ampla, o Ipea aponta que, entre 1970 e 2017, a PTF da agricultura brasileira cresceu em média 2,03% ao ano, acima da média mundial de 1,71%.

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Em 2017, aproximadamente 61% do crescimento do produto agropecuário brasileiro era atribuído à tecnologia, enquanto 39% vinha de fatores como terra e trabalho. Em Mato Grosso, a participação atribuída à tecnologia chegou a 67%. Nos anos mais recentes analisados pelos pesquisadores, a parcela associada à produtividade chegou a aproximadamente 80%.

Isso ajuda a explicar uma das maiores transformações econômicas do Brasil nas últimas décadas. O país não simplesmente colocou mais terra e mais insumos para produzir mais. Aprendeu a produzir de maneira diferente.

Mato Grosso é um dos melhores exemplos

E aqui a discussão deixa de ser nacional e passa diretamente pelo território que interessa ao TransMeridional. Mato Grosso apresentou crescimento excepcional da produtividade.

No período de 2006 a 2017, o produto agropecuário mato-grossense cresceu 6,44% ao ano, enquanto os insumos cresceram 2,69% e a produtividade total dos fatores avançou 5,81% ao ano. É um número extraordinário. A produção cresceu muito mais rapidamente do que os recursos empregados.

Esse é o tipo de expansão que transforma uma fronteira agrícola em uma potência produtiva. E ajuda a entender por que Mato Grosso deixou de ser apenas uma área de expansão da agricultura brasileira para se tornar um dos principais centros de produção agropecuária do planeta. O próprio Ipea destaca Mato Grosso entre os estados brasileiros onde a PTF cresceu rapidamente e chama atenção para o desempenho do estado em comparações internacionais.

Maturação da Eficiência Agropecuária

1
Adoção Tecnológica Base: Plantio direto, sementes geneticamente modificadas e adubação.
2
Risco de Saturação de Insumos: Aumento de custos sem retorno proporcional em volume (Modelo Argentina).
3
Eficiência Sistêmica: Digitalização, agricultura de precisão, integração e resiliência climática.
4
Adição de Valor Econômico: Transformação industrial no território, logística eficiente e rentabilidade de capital.

Mas há uma pergunta que precisa ser feita para o futuro

Se Mato Grosso já alcançou níveis extraordinários de produtividade, qual será o próximo salto? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para o agronegócio mato-grossense nos próximos anos. Porque não é possível imaginar que o modelo continuará avançando indefinidamente apenas pela expansão de área. E mesmo quando ainda existe espaço para expansão, o custo de cada nova unidade de produção tende a aumentar.

A próxima fronteira pode estar menos em produzir mais hectares e mais em produzir mais valor em cada hectare. Isso significa produtividade. Mas também significa uma segunda camada: mais valor por tonelada produzida. E uma terceira: mais valor agregado dentro do próprio território. É nesse ponto que produtividade agrícola começa a se encontrar com infraestrutura econômica.

O próximo salto pode ser econômico, não apenas agrícola

Imagine a sequência: a fazenda produz mais por hectare; o armazém reduz perdas e melhora a comercialização; a ferrovia reduz o custo logístico; a energia permite industrialização; a agroindústria transforma a matéria-prima; o frigorífico agrega valor ao boi; o comércio exterior amplia os mercados; e os serviços especializados capturam uma parcela maior da renda gerada.

Nesse cenário, o salto de produtividade deixa de ser apenas agronômico. Passa a ser econômico. E essa é uma diferença enorme. O desafio do Mato Grosso não será simplesmente produzir mais soja, milho, algodão ou carne. Será produzir mais valor com cada unidade de terra, capital, energia, trabalho e infraestrutura empregada.

O clima pode ser o próximo grande teste

O estudo mais recente do BID sobre a produtividade agrícola brasileira reforça essa preocupação. A pesquisa, publicada em julho de 2026, calculou crescimento médio da PTF de 1,56% ao ano entre 1985 e 2017, responsável por aproximadamente 60% do crescimento da produção.

Mas encontrou também forte divergência regional e identificou que fatores climáticos exerceram efeito negativo sobre a produtividade, enquanto investimentos em pesquisa e desenvolvimento e educação tiveram influência positiva.

Esse ponto merece atenção. Porque o próximo salto produtivo não dependerá apenas de colocar mais tecnologia dentro da fazenda. Será necessário desenvolver tecnologia capaz de reduzir a vulnerabilidade da produção ao clima. Isso envolve genética, manejo de solo, sistemas de produção, agricultura de precisão, irrigação onde economicamente viável, previsão climática, gestão de risco, recuperação de áreas degradadas e integração entre diferentes atividades. A produtividade do futuro será cada vez mais uma combinação entre tecnologia e resiliência.

Análise THM: A Renovação da Vantagem Tecnológica

A experiência argentina demonstra que uma vantagem tecnológica não é permanente se não for renovada. O avanço constante exige reinvestimento em pesquisa, atualização infraestrutural e qualificação técnica. Quando o ritmo de inovação vacila, a produção passa a exigir custos crescentes em insumos para sustentar os mesmos volumes, corroendo a rentabilidade e o dinamismo do setor.

O risco de confundir crescimento com produtividade

Esse talvez seja o principal ensinamento do caso argentino. Um país pode comemorar uma safra recorde, aumentar a área plantada, utilizar mais fertilizante, comprar mais máquinas, consumir mais energia e contratar mais crédito — e ainda assim estar perdendo eficiência econômica.

Por isso, olhar apenas para toneladas produzidas é insuficiente. O indicador estratégico é outro: quanto foi produzido em relação ao conjunto de recursos utilizados para produzir. Essa é a essência da produtividade total dos fatores. E é também uma das melhores formas de avaliar a qualidade do crescimento agrícola.

O futuro do agro brasileiro será medido pela produtividade do capital

Essa discussão ganha ainda mais importância em um ambiente de capital caro. Se o produtor precisa investir cada vez mais para obter o mesmo ganho proporcional de produção, a taxa de retorno sobre o capital começa a cair.

Por outro lado, quando uma nova tecnologia permite produzir mais sem aumentar proporcionalmente os custos, o investimento se transforma em produtividade. É aí que o agro se torna capaz de sustentar crescimento por décadas. A pergunta deixa de ser “Quanto conseguimos produzir?” e passa a ser “Quanto conseguimos produzir com cada real investido?”. Essa mudança de perspectiva é decisiva.

E Mato Grosso tem uma vantagem que precisa ser preservada

O estado já demonstrou capacidade de transformar tecnologia em produtividade em escala. Os números históricos do Ipea mostram isso com clareza: entre 2006 e 2017, a PTF mato-grossense cresceu 5,81% ao ano. Mas o sucesso passado não garante o próximo ciclo. O próximo salto dependerá da capacidade de combinar produtividade agrícola, infraestrutura, logística, energia, capital, conhecimento e agregação de valor.

E é justamente aqui que o desenvolvimento do Nortão ganha importância: BR-163, Arco Norte, Ferrovia, Armazéns, Energia, Frigoríficos, Agroindústria, Pecuária intensiva, Comércio exterior e Serviços especializados. A região está construindo uma infraestrutura econômica que pode permitir que a próxima etapa não seja simplesmente produzir mais — pode ser produzir mais valor.

Pilares para o Próximo Salto do Agro

  • Resiliência climática por meio de genética, irrigação estratégica e conservação de solo.
  • Migração da métrica de volume (toneladas) para métrica de margem e retorno do capital.
  • Industrialização regional e agregação de valor antes do escoamento logístico.
  • Integração contínua entre infraestrutura pesada (BR-163, ferrovias) e tecnologia de precisão.

O alerta argentino termina com uma pergunta brasileira

A Argentina mostra que uma agricultura pode continuar produzindo e, ainda assim, perder velocidade na produtividade. O Brasil, por enquanto, conta com uma história muito mais favorável. E Mato Grosso é uma das provas mais contundentes disso.

Mas justamente por ter chegado tão longe, o estado enfrenta agora uma questão diferente. Não se trata mais apenas de abrir novas fronteiras produtivas. Trata-se de descobrir qual será o próximo salto de eficiência. Pode estar na genética, na agricultura de precisão, na inteligência artificial, na automação, na gestão, na irrigação, na integração lavoura-pecuária, na recuperação de áreas degradadas, na logística, na industrialização, na energia — ou, provavelmente, na combinação de todos esses fatores.

A grande vantagem brasileira das últimas décadas foi aprender a produzir mais utilizando melhor os recursos disponíveis. O desafio das próximas décadas será não perder essa característica. Porque existe uma diferença decisiva entre uma potência agrícola que cresce pelo tamanho e uma potência agrícola que cresce pela inteligência do seu sistema produtivo.

A Argentina oferece o alerta. Mato Grosso oferece a pergunta. Se já aprendemos a produzir muito, o próximo salto será aprender a produzir mais valor com cada hectare, cada animal, cada tonelada, cada quilômetro e cada real investido.

Perguntas Frequentes sobre Produtividade Agrícola

O que o estudo do BID revelou sobre a produtividade agrícola na Argentina?

O estudo do BID apontou que, a partir de 2003, o crescimento agrícola argentino passou a depender desproporcionalmente de mais insumos, enquanto a Produtividade Total dos Fatores (PTF) desacelerou de 3,29% para 1,6% ao ano.

Qual é a diferença entre crescer por produtividade e crescer por uso de insumos?

Crescer por produtividade significa produzir mais mantendo ou otimizando a quantidade de recursos. Crescer pelo uso de insumos significa elevar a produção à custa do aumento proporcional dos custos operacionais, o que reduz as margens de lucro.

Qual foi o desempenho da produtividade agrícola de Mato Grosso segundo o Ipea?

Entre 2006 e 2017, a Produtividade Total dos Fatores (PTF) em Mato Grosso avançou 5,81% ao ano, impulsionada por inovação tecnológica que respondeu por até 67% do crescimento agropecuário do estado.

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