
O agronegócio mato-grossense segue liderando a produção nacional de grãos, mas os ganhos obtidos dentro da porteira nem sempre chegam de forma igual a todas as regiões do Estado. No extremo Norte, municípios como Alta Floresta e Matupá convivem com um desafio que pesa diretamente sobre a rentabilidade das propriedades rurais: o custo logístico.
Da Redação | 13 de Junho de 2026, 14h54 | Foto: Arquivo da internet
Dados do mercado apontam que a soja disponível em Alta Floresta foi negociada a R$ 101,60 por saca, enquanto em Matupá o valor chegou a R$ 101,20. No mesmo período, a média estadual foi de R$ 106,07 por saca.
A diferença pode parecer pequena em uma negociação individual, mas se transforma em perdas significativas quando aplicada ao volume produzido em grandes áreas agrícolas.
Quanto a diferença representa no bolso do produtor
A defasagem de R$ 4,47 por saca registrada em Alta Floresta gera impactos expressivos.
Uma propriedade com 1.000 hectares e produtividade de 65 sacas por hectare deixa de faturar aproximadamente R$ 290 mil em uma única safra.
Em áreas de 5 mil hectares, comuns em regiões consolidadas do agronegócio, a perda potencial ultrapassa R$ 1,45 milhão.
Recursos que poderiam ser reinvestidos na compra de máquinas, ampliação da armazenagem, aquisição de tecnologia ou movimentação do comércio local acabam sendo absorvidos pelos custos da cadeia logística.
Por que a soja vale menos no Norte?
O preço pago ao produtor é calculado a partir da chamada paridade de exportação. Em resumo, o valor internacional do grão sofre descontos relacionados ao transporte, armazenagem e demais custos operacionais até chegar ao mercado.
Nesse cenário, a localização geográfica exerce papel decisivo.
Enquanto regiões próximas a terminais ferroviários e corredores consolidados possuem maior competitividade, municípios mais distantes enfrentam custos adicionais que reduzem o preço final recebido pelo agricultor.
Rondonópolis, por exemplo, apresenta uma das melhores condições logísticas do Estado devido à conexão ferroviária. Já Alta Floresta e Matupá dependem de longos trajetos rodoviários para alcançar os principais corredores de exportação.
O impacto para a economia regional
O reflexo não fica restrito às fazendas.
Menor rentabilidade significa menos recursos circulando em oficinas, concessionárias, cooperativas, revendas agrícolas, empresas de transporte e no comércio em geral.
Especialistas do setor destacam que cada real retirado da renda agrícola gera efeito multiplicador negativo em toda a economia regional.
Em municípios cuja atividade econômica depende fortemente do agronegócio, essa diferença influencia diretamente investimentos privados, geração de empregos e arrecadação indireta.
Armazenagem pode reduzir perdas
O novo Plano Safra trouxe uma medida considerada estratégica para regiões mais distantes dos portos.
O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) ampliou o limite financiável para até 12 mil toneladas por projeto.
Com mais capacidade de armazenagem, produtores podem evitar vendas forçadas durante o pico da colheita, período em que os fretes costumam atingir os maiores valores do ano.
A estratégia permite aguardar momentos mais favoráveis de mercado, reduzindo parte da pressão logística sobre a rentabilidade.
O desafio da competitividade
A consolidação do Arco Norte, a melhoria da BR-163, novos investimentos em armazenagem e a expansão da malha ferroviária aparecem entre as principais soluções apontadas por lideranças do setor.
Enquanto essas estruturas não alcançam plenamente o extremo Norte do Estado, produtores de Alta Floresta, Matupá e municípios vizinhos continuarão enfrentando aquilo que especialistas definem como “imposto da distância” — um custo invisível que reduz a competitividade de uma das regiões mais promissoras do agronegócio brasileiro.
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